
Ângela & Lorenzo
Sábado, 22 agosto 2026


Ângela & Lorenzo
Sábado, 22 Agosto 2026

Casamento
Pedido de
Há pessoas que organizam pedidos de casamento com a mesma eficiência com que reservam uma mesa num restaurante. Depois existe o Lorenzo. O Lorenzo é daqueles que, quando decide fazer uma surpresa, acaba por ser descoberto no tempo que demora a dizer “não é nada, tranquila”.
E, no entanto, o dia 19 de julho de 2024 não era uma data qualquer. Dez anos juntos. Dez. Um número que não se ignora com um ramo de flores comprado numa área de serviço. A ideia inicial tinha sido Veneza. Romântica, sugestiva, pores do sol dourados sobre a água. Pena que a Ângela, com aquela sua irritante capacidade de perceber tudo, tivesse entendido tudo com bastante antecedência e comentado com pouquíssimo entusiasmo a ideia de “derreter numa cidade húmida em julho”. Plano desmascarado. Fim do efeito surpresa.
Nem tudo, porém, estava perdido. O anel já tinha sido escolhido. Comprado. Escondido em casa num sítio tão seguro que o próprio Lorenzo, com a memória de um hamster, corria o risco de nunca mais o encontrar. Portanto, não, não havia volta atrás. Mudava-se apenas de estratégia.
E assim, a uma semana do aniversário, enquanto qualquer pessoa em perfeito juízo teria optado por um jantar elegante e pronto, o Lorenzo teve uma iluminação: paraquedismo. Uma experiência de que tinham falado várias vezes, sempre com aquele entusiasmo que costuma acompanhar as coisas memoráveis.
Perfeito. Primeiro o medo, depois o pedido, seguido de um pouco de relaxamento.
Reservou o salto no Piemonte, em Itália e um hotel com SPA no meio da natureza. “SPA” talvez fosse uma palavra generosa, mas havia uma piscina simpática e isso chegava. A verdadeira surpresa, porém, ainda estava por nascer.
No dia antes à partida, tirou férias sem lhe dizer nada.
Saíram de casa juntos como todas as manhãs.
“Bom trabalho.”
“Para ti também.”
Tecnicamente não estava a mentir. Apenas… a reinterpretar o conceito de trabalho.



Primeira paragem: loja de tecidos. Depois ferragens. Regressou a casa com dois enormes panos e algumas latas de spray.
Costurou os panos com uma concentração digna de um cirurgião e, fiel à sua veia de projetista, não se pôs a desenhar à mão livre. Não. Planeou tudo. Linhas-guia. Centralizações. Proporções. Geometria impecável.
Se ia declarar-se, que fosse pelo menos perfeitamente alinhado.
Após algumas letras, a lata de spray acabou. Silêncio. Um rápido cálculo mental. Catastrófico.
Eram necessárias pelo menos mais três. Correu de volta à loja e encontrou exatamente as últimas três na prateleira. Se isto não é um sinal…, pensou. Terminou de escrever: “Ângela Amo-te”. Deixou secar tudo e escondeu o pano debaixo do banco do carro, numa posição que chamar de “discreta” seria optimista.


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No dia 19 de julho, ao pequeno-almoço, revelou metade do plano:
“Hoje vamos saltar de um avião.”
A Ângela passou em três segundos do espanto à euforia.
O Lorenzo, por outro lado, passou a viagem a conduzir com o braço numa posição estranha só para cobrir o pano suspeito, na esperança de que ela não decidisse naquele dia fazer as limpezas de verão no carro.
No aeródromo, a adrenalina fez o resto.
Entre briefings, equipamento de segurança e sorrisos cúmplices da equipa até ao último pormenor, o Lorenzo entregou as chaves do carro.
Depois subiram para o avião.



Estranhamente, uma vez em altitude, a tensão transformou-se em lucidez.
Afinal, tudo estava em marcha. Só faltava saltar. Primeiro ele. Depois ela.
A queda livre não se parece com nada de assustador; pelo contrário, há uma leve sensação de flutuar e tempo infinito para admirar a paisagem lá embaixo.
Quando o paraquedas se abriu, o Lorenzo teve um único pensamento:
agora vem a parte boa.






Tocou o chão primeiro. Desprendeu-se rapidamente e virou-se. A Ângela estava a planar com aquele ar feliz de quem está a viver algo irrepetível.
Ao longe viu o pano. Leu o que estava escrito. Sorriu, convencida de que era “apenas” um gesto romântico pelos dez anos.
Depois tocou o chão. E percebeu que o Lorenzo não tinha aquela expressão de aniversário. Tinha a expressão de um momento que muda tudo.
Ajoelhou-se, visivelmente emocionado, e em português, porque certas palavras têm de ser ditas na língua do coração, perguntou:
“Ângela Sofia Gonçalves Gomes, queres casar comigo?”
Ela olhou para ele ainda com os óculos de proteção postos, a respiração acelerada pelo salto e por algo ainda maior.
“Claro, meu amor.”
E assim, após dez anos, descobriram que o verdadeiro salto no vazio não tinha sido saltar de um avião, mas escolher continuar juntos. Com a diferença de que, desta vez, não havia paraquedas. Apenas confiança.


Ângela
Lorenzo


